Goiás: a cidade que não quer turistas

Goiás: a cidade que não quer turistas

Goiás é a minha cidade favorita no Estado. Pra mim, Pirenópolis perde feio nos quesitos charme e beleza arquitetônica. Pra mim, Caldas não tem nada pra se fazer comparada aos programas e passeios que Goiás oferece. Estava prontíssima para falar de Goiás como a melhor cidade turística do Estado. Porque além do meu gosto pessoal, poderia expor a importância histórica da cidade, a facilidade de acesso, as características culturais próprias, as personalidades importantes, a gastronomia rica e os vários passeios disponíveis. Me parecia óbvio que a primeira cidade a explorar para a Bula de Viagem fosse Goiás.

A coisa toda começou a ficar curiosa quando comecei a falar sobre isso. As pessoas se dividiram em dois times. De um lado os apaixonados pela cidade. Mas acho que seria mais adequado nomeá-los como “os descendentes”. Sim, porque são exatamente as pessoas que têm uma relação de sangue e família com a cidade. São pessoas que moraram lá, que têm casa lá, que vêm de famílias de lá. Pessoas que, quando vão, não são turistas. Do outro lado, os que não entenderam por que eu queria falar de Goiás. Além da cara de estranhamento, todos deste grupo soltaram a pergunta: mas o que você vai fazer lá? E não vamos ignorar um subgrupo: moradores de Goiânia, da minha geração, que visitaram Goiás com a escola lá nos anos 1980 e 90. E nunca mais voltaram.

Como a ideia do conteúdo que produziríamos era, desde o começo, apresentar a cidade evidenciando seu potencial turístico, me pareceu interessante deixar um pouco de lado o que já sabia e estava pesquisando sobre a cidade e ir lá fazer uma visita com olhos de turista de primeira vez. E assim fizemos.

Reservei o hotel mais indicado, dirigi até lá escutando o cantor Marcelo Barra (ícone da música vilaboense), fui aos restaurantes mais indicados e comi o que parecia ser o mais típico, passeei pelas ruas que pareciam as mais importantes, entrei nos museus mais óbvios, zanzei com câmera pra registrar casas e luzes. Fui turista e voltei com uma grande dúvida: Goiás quer ser uma cidade turística?

A nossa viagem foi marcada por uma sensação sutil de não sermos bem-vindos. Inclusive, pensando aqui em retrospectiva, em três dias não escutei nenhum “bem-vindo” na cidade.

Hotel

Me hospedei no hotel mais importante da cidade. Um hotelzão com uma história bacana, que está completamente escondida. Lembrei de mim aos 10 anos naquela piscina redonda e fria, vi meu filho se balançar num parquinho caindo aos pedaços, imaginei a quantidade de eventos que devem ter acontecido naqueles salões. Mas o valor do hotel é imaterial: memórias. O que se vê são as lâmpadas queimadas, o teto descascando, a cortina velha no banheiro, a recepção que não informa nada sobre o hotel ou sobre a cidade.

Restaurantes

São pouquíssimos os restaurantes da cidade. Fomos com uma lista de cinco e descobrimos somente mais um. As opções existentes não abrem todos os dias e têm horários bem restritos. Os restaurantes que conseguimos testar ofereceram experiências semelhantes: nos deram comida para sobreviver. Não encontramos nenhum prato típico excepcionalmente executado e nenhuma releitura da gastronomia regional. Não encontramos atendimento treinado ou amigável. Não entendemos por que todos os pratos demoram mais de uma hora pra serem servidos (chegamos a esperar 1 hora e 20 minutos por uma porção de batatas fritas). Não encontramos muitos motivos para indicar os locais que visitamos.

A falta de comida

Sim, falta de comida. Era sábado e a cidade nos parecia vazia. Ainda assim o garçom nos informou que “acabou o bacalhau e acabou a linguiça e acabou a lasanha e não servimos empadão e não tem café e acabou o pastelinho”, este último, uma das mais famosas iguarias da cidade. Juro que olhei para os lados pra procurar uma multidão de turistas escondidos que comeram antes das 20h toda a comida da cidade. Não encontrei. Também não encontrei os doces. E desses eu fui atrás com afinco. Fui ao Mercado e só havia um. Passei na casa de três doceiras pra receber a mesma resposta curta: acabou. Por fim me contentei com algumas unidades feitas dias antes e vendidas numa loja de artesanato. A essa altura do campeonato já tinha parado de perguntar por rosa de coco, limãozinho galego e alfenins. Aparentemente turista não é digno de provar esses doces.

Museus e igrejas fechados

Algumas atrações fecham em dias e horários que seriam confortáveis para visita de turistas. Outras opções não funcionam exatamente nos horários em que, oficialmente, deveriam estar funcionando.

A necessidade de carro

A forma mais fácil de ir da capital, Goiânia, até a cidade de Goiás é de carro. E é fácil mesmo: a GO-070 é duplicada, sinalizada e segura. São 144 km facilmente percorridos em menos de 2 horas e com boas opções de paradas no caminho. A questão é que, chegando lá, não dá pra esquecer o carro no hotel e sair perambulando a pé. As atrações, passeios e restaurantes ficam relativamente distantes entre si. Mas talvez o que complique é a falta de orientação sobre as localizações. Em três dias não nos deparamos com nenhum mapa da cidade. Então, pra não ficar zanzando feito barata tonta debaixo do sol escaldante (sim, Goiás é quente), a solução do turista de primeira viagem vai ser pesquisar no Google Maps ou coisa parecida.

A engrenagem do turismo

São vários os fatores que contribuem para a sensação de acolhimento de um turista. E quando esses fatores e pessoas não trabalham em conjunto, divulgando uma mesma mensagem e entendendo que são parte de um todo, a coisa degringola. Seria razoável supor que qualquer cidade que tenha a pretensão de explorar o turismo profissionalmente deveria investir na capacitação e formação das pessoas que trabalham em sua estrutura turística. Mas isso parece não acontecer em Goiás. Lá fica-se com a permanente sensação que estão nos prestando um imenso favor por nos receberem.

Parece existir um ciclo: não há turistas, por isso não se cria estrutura para receber o turismo, por isso não há turistas. Ponderamos o peso do título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade e o quanto os requisitos para manter esse reconhecimento podem ter engessado a cidade. Mas olhando para os outros 13 destinos que também conquistaram esse título não parece justo destinar a ele a explicação para tudo. Um descendente da cidade levantou a questão da supervalorização das famílias tradicionais e dos valores por elas mantidos. Será?

Chego ao fim do texto sem conclusão. Só sabendo que, apesar de tudo isso, insisto em minha paixão sem explicação e sem reciprocidade pela cidade. E, inclusive, insisto tanto que produzimos um amplo conteúdo para contribuir com o turista que, a despeito do que foi dito, ainda queira se encantar com a Cidade de Goiás.